Segunda, 28 Setembro 2026 10:03

MEUS VINTE ANOS DE INCRA: SERVINDO E APRENDENDO Destaque

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Por Augusto Carlos Avelino Teixeira de Carvalho,
Analista em Reforma e Desenvolvimento Agrário do INCRA*

Neste dia 28/09/2026, completo exatamente vinte anos de serviço no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA). Mais do que uma marca no registro funcional, este momento é uma oportunidade para refletir sobre uma trajetória construída ao lado de colegas tão valiosos, gestores, parceiros institucionais e, principalmente, das milhares de famílias rurais que dão sentido à existência da nossa Instituição e do nosso compromisso de trabalho.

Ao ingressar no INCRA, encontrei uma autarquia que carregava uma rica história ligada à Colonização, ao Cadastro Rural e à Reforma Agrária. A cada conversa com servidores que já vinham de uma longa jornada de atuação, mais eu ficava convicto da importância desta Autarquia. Ao longo dessas duas décadas, testemunhei mudanças significativas na sociedade brasileira, no mundo rural e na própria administração pública. Apesar dos desafios que carregam cada período, permaneci convicto de que a missão institucional do INCRA continua sendo fundamental para a promoção da justiça social e do desenvolvimento sustentável no campo. Reconhecer a existência de um forte preconceito social — não necessariamente contra este órgão em si, mas em relação aos seus beneficiários ou aos acampados — evidencia o extenso caminho que ainda precisamos percorrer. Compreendo, contudo, que certo segmento da sociedade jamais entenderá o propósito essencial dessas históricas mobilizações. A essas pessoas, resta-nos apenas ter paciência.

Minha trajetória no INCRA teve um prelúdio importante em 2005. Naquele período de expressiva oferta de concursos públicos, fui aprovado em um certame que viabilizou minha transferência para Natal (RN), um movimento fundamental para que eu ficasse próximo das minhas filhas. Na época, eu já exercia a docência na Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), lotado no Departamento de Economia do Campus de Assú — instituição em que inclusive fui Chefe de Departamento e vivi anos maravilhosos ao lado de um time fantástico de colegas, discentes e técnicos. A concomitante abertura de um novo campus da UERN na Capital permitiu minha vinda com a devida acumulação de cargos, estabelecendo uma ponte importante entre minha atuação acadêmica e o serviço público federal. Desde 2006, estou lotado no Departamento de Turismo do Campus Avançado de Natal, local em que também construí laços de amizade e de muito afeto com professores, técnicos e alunos.

Assim, minha jornada na Autarquia teve início na desafiadora Divisão de Projetos de Assentamento — atualmente denominada Divisão de Desenvolvimento Sustentável. Em seguida, fui convidado para compor a excelente equipe da Delegacia Regional do Desenvolvimento Agrário, hoje Superintendência Regional do Ministério do Desenvolvimento Agrário. Em 2011, retornei ao INCRA voltando para a Divisão de Desenvolvimento de Projetos, onde, pouco tempo depois, assumi a chefia. Mais adiante, atuei no Planejamento, passei pelo Programa Nacional de Educação da Reforma Agrária (PRONERA) e, em seguida, fui para a Divisão Operacional (atual Divisão de Administração), onde inicialmente fiquei responsável pelo Orçamento e Finanças acumulando com função na Unidade Correicional da Superintendência. Depois exerci a função de Chefe da Administração, concomitantemente com o cargo de Superintendente Substituto. Agora, em 2026, integrei a Câmara de Conciliação Agrária e, atualmente, sou responsável pelo serviço de crédito da Divisão de Desenvolvimento Sustentável. As oportunidades que me foram dadas para exercer funções diversificadas neste período possibilitaram enxergar a Instituição de forma plural e global, compreendendo o quanto as suas ações são necessárias para o desenvolvimento rural e o ordenamento da estrutura fundiária. Essa diversidade de funções exercidas atua em mim como um dínamo constante na busca pelo conhecimento e pela compreensão da realidade agrária do Rio Grande do Norte.

Neste percurso, tive a oportunidade de participar de inúmeras capacitações e pesquisas voltados para a agricultura familiar, segmento que constitui a base social e produtiva do campo potiguar. As evidências demonstram que a agricultura familiar continua desempenhando papel fundamental na geração de ocupação, na produção de alimentos e na dinamização das economias locais, mesmo enfrentando limitações históricas relacionadas ao acesso à terra, à água, ao crédito e à assistência técnica, ou seja, em razão do orçamento limitado.

A experiência acumulada permitiu compreender que a reforma agrária não pode ser analisada apenas sob a ótica da distribuição de terras. Ela representa uma política pública mais ampla, voltada para a inclusão social, a geração de oportunidades e o fortalecimento da cidadania. Os assentamentos rurais implantados no Rio Grande do Norte ao longo das últimas décadas, que somam quase 290 assentamentos, mais de 500 mil hectares desapropriados, com mais de 80 mil pessoas vivendo nestes territórios, contribuíram para fixar famílias no campo, ampliar a produção agrícola e criar novas perspectivas de desenvolvimento em diversas regiões do estado.

Ao mesmo tempo em que participei das atividades finalísticas da autarquia, desenvolvi um interesse crescente pela preservação da memória institucional. Com o passar dos anos, percebi que grande parte da história do INCRA estava dispersa em documentos, fotografias, processos administrativos e nas lembranças dos servidores que ajudaram a construir a instituição. Essa percepção motivou minha participação em iniciativas voltadas ao resgate e à preservação dessa memória, reunindo informações sobre diferentes períodos da atuação do órgão no Rio Grande do Norte. Entre essas ações, destaca-se o Projeto Memória da Superintendência Regional do INCRA, concebido para preservar acervos documentais, fotográficos e depoimentos de servidores ativos e aposentados, assegurando que as novas gerações conheçam a trajetória institucional construída ao longo de décadas. Nesta oportunidade, expresso meu profundo agradecimento à minha dileta amiga Maria das Graças Arruda de Oliveira (Graça Arruda), cujo empenho tem dado concretude a este projeto. Faço de Graça, a única colega servidora que cito nominalmente, a representante de todos os demais colegas, servidores e demais colaboradores da casa a quem também estendo meu reconhecimento.

A preservação da memória não representa apenas um exercício de nostalgia. Ela constitui uma ferramenta larga e estratégica para compreender erros e acertos, aperfeiçoar políticas públicas e fortalecer a identidade institucional. Nenhuma organização consegue planejar o futuro de forma consistente sem conhecer o próprio passado.

Nos últimos anos, essa reflexão, a partir de iniciativa de outros colegas, têm apontado para uma busca em transformar o conhecimento acumulado pela instituição em um patrimônio acessível aos servidores, pesquisadores e à sociedade. A ideia é desenvolver ações de capacitação, formação continuada, parcerias com universidades, organização de acervos técnicos e acadêmicos e valorização do capital humano da autarquia. Trata-se de uma visão voltada para o futuro, na qual conhecimento, inovação e memória caminham lado a lado, permitindo que o INCRA se torne uma instituição de fato moderna.

Recentemente, tenho desenvolvido e institucionalizado os projetos de extensão: TURISMO DE BASE COMUNITÁRIA NO PROJETO DE ASSENTAMENTO SÃO JOSÉ DE MAXARANGUAPE, submetido à avaliação para 2027. Em 2026, executo o projeto de extensão "TURISMO EM ASSENTAMENTOS E TERRITÓRIOS QUILOMBOLAS: UMA CONSTRUÇÃO DE CENÁRIOS" Além disso, proponho o desenvolvimento, por parte de Instituições de Ensino Superior (IESs) parceiras, de um projeto de especialização em turismo de base comunitária voltado a áreas de Assentamentos, Territórios Quilombolas e PAEs Pesqueiros, visando ampliar a qualificação e o fortalecimento desses territórios.

Ao olhar para este caminho percorrido, percebo que os resultados alcançados nunca foram fruto de esforços individuais. O Serviço Público é, por essência, uma obra coletiva. Cada processo concluído, cada assentamento criado, cada documento preservado e cada projeto desenvolvido refletem o trabalho conjunto de inúmeras pessoas que dedicaram suas capacidades ao fortalecimento do INCRA e das políticas públicas voltadas ao meio rural.

Após vinte anos de instituição, continuo acreditando nos valores que me motivaram a ingressar no serviço público: compromisso com a sociedade, respeito ao interesse coletivo, valorização do conhecimento e defesa das políticas públicas como instrumentos de transformação social. São princípios que permanecem atuais e necessários diante dos desafios que ainda se apresentam ao desenvolvimento rural brasileiro.

Faço questão de destacar, ainda, minha visão sobre o papel, a função e os direitos do servidor público. A importância da luta coletiva e a consciência de classe sempre foram fundamentais para mim. Essa convicção acompanha-me desde o início da minha trajetória, tanto na Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), por meio da Associação dos Docentes da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (ADUERN), quanto como servidor federal do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), onde mantenho vínculo com a Associação dos Servidores do INCRA no Rio Grande do Norte (ASSINCRA/RN) e o Sindicato dos Trabalhadores no Serviço Público Federal no Rio Grande do Norte (SINDSEF/RN).

Chego a este marco com sentimento de gratidão. Gratidão aos colegas que compartilharam experiências, que me proporcionaram tantos momentos felizes e de tristeza; mutuamente testemunhamos as nossas lutas diárias, na gangorra e na agonia da vida. Passamos tanto tempo juntos que constituímos uma espécie de família Incraniana e timbuzeira, dos gestores que confiaram em meu trabalho, às instituições parceiras e às famílias beneficiárias das políticas públicas executadas pelo INCRA assentados quilombolas e, agora, pescadores artesanais. Cada uma delas contribuiu para tornar essa jornada significativa.

Ao completar vinte anos de trajetória, renovo minha convicção de que ao atuar no INCRA — instituição que assegura o sustento da minha família (e que família! Deise, Clarinha, Cecília, Augusto César, Beatriz, Laura e Lucas) — significa, fundamentalmente, dedicar-se às pessoas e aos territórios que constroem, no dia a dia, o futuro do Brasil.

*Augusto Carlos Avelino Teixeira de Carvalho é graduado em Economia e com Mestrado em Ciências Sociais.

Ouça o podcast do Projeto Memória do INCRA/RN sobre o tema (clique AQUI para acessar o episódio no Spotify)

Fonte: Ascom Cnasi-AN

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